Projetos de Pesquisa  - Estudos Literários

 

 

 

Representações da Violência na Literatura em Língua Portuguesa

Eloisa Porto Corrêa Allevato Braem

Este projeto de pesquisa tem o objetivo de investigar representações da violência em obras literárias produzidas na língua portuguesa, nos últimos séculos, prioritariamente, em diálogo com áreas do conhecimento que também estudem o tema proposto, como a História e o Direito. Embasados em pesquisas de Michel Foucault sobre a Microfísica do Poder (1979), a história da prisão e dos mecanismos de Vigiar e Punir (1975); de Maria Cecília Minayo a respeito de Conceitos, teorias e tipologias de violência (2009) e de Pierre Bourdieu sobre O Poder Simbólico (1992) e A Dominação Masculina (1999), entre outros, abordaremos algumas formas de violência representadas em obras ficcionais de autores como Alexandre Herculano, Raul Brandão, José Louzeiro, José Saramago e Mia Couto. O projeto se vincula à Linha de Pesquisa “Literatura, Teoria e História” do programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística (PPLIN-UERJ), à Iniciação Científica em desenvolvimento “O Direito na Literatura e no Cinema” com fomento UERJ  (PIBIC-SR2) e aos grupos de pesquisa Nós do Insólito e Literaturas, Artes Visuais e Formação de Professores, certificados pela UERJ e pelo CNPq.

Madalena Vaz Pinto

Literatura fora de si: inespecificidade e práticas interartísticas

Um olhar sobre a produção contemporânea permite constatar a existência de uma heterogeneidade dificilmente circunscrita em períodos e gêneros estabelecidos. Assiste-se à desestabilização da ideia da arte associada aos valores da autonomia e da originalidade e ao surgimento de práticas híbridas que colocam em tensão meios e suportes. Dir-se-ia que a queda da aura iniciada no séc. XIX não para de se expandir em direção a experiências de não pertencimento. Ler o contemporâneo, habitá-lo, parece exigir um esforço de invenção de formas, no caso da literatura, da abertura ao diálogo com outras artes: as artes plásticas, música, cinema, teatro, etc. Formas mutantes, portanto, que se se apresentam como literatura, não podem mais ser lidas unicamente por meio de categorias literárias tais como ?autor?, ?texto? ?estilo?, ?sentido?. Diante desse panorama, gerador não raras vezes de um mal-estar sensível e terminológico, exige-se um espectador emancipado capaz de trabalhar no ato da leitura uma experiência estética que vá além da descrição de formas, viabilizando novas partilhas entre o que se sente e o que se diz. Atrelada a esta partilha, dá-se um jogo entre presença e interpretação crítica, entre experienciar o texto literário e pô-lo em ação no mundo. O Projeto vincula-se ao Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística da Faculdade de Formação de Professores da UERJ (PPLIN), na área de Estudos Literários, na Linha de Pesquisa "Literatura, Teoria e História"

Aproximações da poética tavariana: literatura, experimentação, inespecificidade

Percorre o projeto literário de Gonçalo M. Tavares a indagação sobre o estatuto do literário, não com pretensões a uma possível redefinição, mas antes como abertura de espaço que assegure a possibilidade de experimentação e capacidade inventiva das quais a ficção não deve abrir mão. Desse lugar de liberdade e risco o autor tem produzido textos de diferentes tonalidades e formas, alguns próximos a gêneros mais tradicionais, outros de difícil classificação. Seu primeiro livro, Livro da dança, é publicado em 2001. Composto de um conjunto de fragmentos, (poemas? aforismos?), nele se apresenta o ?Projeto para uma poética do movimento?. Propomos pensar Livro da dança como enunciador de um gesto autoral, subjetividade movente, dançante, experimental, onde aquele que dança funciona como equivalente daquele que escreve: não dizer eu, quem escreve não deve dizer eu. O autor como corpo afetado e produtor de afetos no qual atuam forças acionadas por outros corpos, outros textos, outros ?eus?, ?Não repetir a ideia que cada corpo tem, cada corpo só tem uma ideia,/Não repetir a ideia que cada corpo tem./Deitar o corpo fora depois de cada corpo,/Não repetir o corpo. (TAVARES, 2001, p. 59). Verifica-se nos textos gonçalianos o que poderíamos chamar de ?pactos autorais variáveis?, textos nos quais a autoria se apresenta de forma mais coesa e estável a par de outros declaradamente permeáveis à influência, como sugere o verbete Harold Bloom do livro Biblioteca: ?A única angústia de homem sensato é a angústia da não influência.? (TAVARES: 2019, p. 63) Ser um autor do seu tempo não significa, no caso de Gonçalo M. Tavares, perpetuar o discurso da crise nem endossar a negatividade como opção intelectual. A poética tavariana assenta em uma percepção de humanidade múltipla e complexa, simultaneamente capaz de altruísmo e crueldade, da qual não se exclui a possibilidade do novo e do acontecimento. Não há, no assumir desta posição, qualquer resquício de ingenuidade, mas antes um modo intempestivo de habitar o seu tempo, o que o aproxima da noção de contemporâneo como pensada por Agamben: ?adere [ao seu tempo] e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias? (AGAMBEN: 2009, p. 59); percebe o escuro sob as luzes do presente e ?está à altura de transformá-lo e de colocá-lo em relação com outros tempos? (AGAMBEN: 2009, p. 72). Em um primeiro momento, o projeto irá deter-se em um conjunto de textos do autor no qual se incluem romances e textos pertencentes às séries O Bairro, Enciclopédia e Literatura Bloom. Em seguida, serão inseridos no projeto textos dos autores portugueses Almada Negreiros, Fernando Pessoa, Maria Gabriela Llansol e Vergílio Ferreira. Não obstante diferenças de estilo, tonalidade afetiva e momento histórico, há nesses autores questões relativas à experimentação com a linguagem, hibridação de gêneros e produção de subjetividade que permitem aproximações com a poética de Gonçalo M. Tavares. O Projeto vincula-se ao Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística da Faculdade de Formação de Professores da UERJ (PPLIN), na área de Estudos Literários, na Linha de Pesquisa ?Literatura, Teoria e História?. Descrição da Linha de Pesquisa: A constituição desta linha tem como foco o estudo da literatura, de seus fundamentos teóricos e reconfigurações históricas. Com isso, volta-se tanto para as correntes e movimentos da literatura e da teoria literária em diferentes épocas quanto para seus desenvolvimento e projeção na contemporaneidade. A linha de pesquisa proposta é integrada por pesquisadores que desenvolvem trabalhos em Literaturas do século XIX ao XXI e outras Artes, ressaltando o diálogo interartístico e interdisciplinar.

Naturalismos no final do século XIX (1870-1920)

Leonardo Mendes

Na historiografia tradicional brasileira, o naturalismo ocupa uma posição rebaixada. Ele aparece como uma literatura do intervalo, situada entre duas estéticas consideradas mais autênticas e, por isso, mais valorizadas e estudadas: o romantismo e o modernismo. Sendo assim, o naturalismo é apresentado, via de regra, como uma literatura falsa e equivocada. Falsa porque era uma voga importada (e já ultrapassada) da França, logo ?estrangeira? ao Brasil; equivocada porque misturava arte com ciência. Tanto a hostilidade à ciência quanto a eleição do ?nacional? como critério de valor são do imaginário romântico. É certo que a historiografia ?romântico-modernista? canonizou algumas obras naturalistas, como O primo Basílio (1878), de Eça de Queirós, e O cortiço (1890), de Aluísio Azevedo, mas a consagração ocorre apesar do equívoco naturalista, que é inegociável. No Brasil, escritores dominantes como Machado de Assis e José Verissimo impuseram ao naturalismo uma resistência robusta que se perpetuou na historiografia do século XX. A materialidade dos enredos naturalistas era desconcertante para a elite letrada e por isso a historiografia negligenciou essa produção (MENDES, 2014). Rebaixado e esquecido, o naturalismo oitocentista é um continente desconhecido. Ele é contemporâneo ao crescimento das cidades, à industrialização da imprensa e ao barateamento dos livros. Muitos escritores do fim do século XIX se associaram ao naturalismo como forma de reivindicar o novo e o moderno. O objetivo deste projeto é prosseguir o trabalho de pesquisa desse corpus, identificando escritores e escritos naturalistas esquecidos, marginalizados ou de menor ?capital simbólico? (BOURDIEU, 1990). Abandonamos a visão da história literária fechada sobre um território e tratamos o naturalismo oitocentista como manifestação literária em escala transnacional, capaz de produzir obras de várias vertentes (BAGULEY, 1990) e de se adaptar a diferentes realidades de diferentes países, a ponto de ter se tornado ?une vogue planétaire? (BECKER & DUFIEF, 2018). Ao conceber o naturalismo como uma temporalidade transnacional (1870-1920), a pesquisa adota um ponto de vista não-evolucionista que abandona noções caras à historiografia tradicional, como ?atraso cultural? e ?influência? (CASANOVA, 1999), assim como considera as batalhas e o equilíbrio de poder que organizam o campo literário local e global (BOURDIEU, 1990).

Maria Cristina Cardoso Ribas

Modos de ver, modos de ser: experiência literária e(m) conexões intermidiáticas e transculturais

Trata-se do Projeto Prociência em sua quarta renovação. Atualizando o principal objetivo da reflexão desenvolvida como pesquisador e docente no projeto original, pretendemos entender a Literatura, no espaço contemporâneo do mundo, como experiência literária não apenas sob domínio do intelecto, mas como requisição de uma sensibilidade intelectiva e corpórea voltada às diversas materialidades e conexões que as constituem, nos controversos limites das artes com as mídias em circulação. Espera-se reorganizar o olhar e a escuta para as produções artístico-literárias em sua constituição intermidiática, abrindo espaço para uma leitura sinestésica, de base não só intelectiva, mas experiencial, e marcada pela ?presença?; imprimir uma dimensão diferenciada à captação dos textos literários de modo a entender a tessitura granulada e plural das artes e mídias constituintes, em suas fronteiras quase inexistentes; desenvolver a leitura de imagens e a descrição do pictural, como referências e combinações intermidiáticas, no corpo do texto literário; construir o modus operandi nas análises intermidiáticas entre textos literários e adaptações. É preciso operar com recortes, vindos de escolhas do analista sobre as escolhas dos autores, roteiristas, diretores, músicos, coreógrafos, bailarinos, em função das obras e mídias em diálogo, com seus diferentes contextos, configurações e materialidades. Ressalta-se que cada vez mais vem sendo disseminado o enfoque intermidiático no campo das Letras, em várias Universidades brasileiras (UFMG, Unimontes, UFJF, UFRGS, PUC-Rio, UFF) mesmo porque, sendo um estudo teórico-crítico bastante inclusivo, de base não hierarquizante, acolhe as diversas artes e mídias em circulação e representa uma abertura para a fruição da produção artística contemporânea. E, conforme nossa percepção ao longo do último triênio, esta fruição ganha contornos para além do intelecto, um dos tópicos que pretendemos estudar nesta formulação da pesquisa . Os Estudos das Intermidialidades inicialmente incluem duas tendências simultâneas em países diferentes: nos Estados Unidos, com os chamados Estudos Interartes, empreende uma atualização das Artes Comparativas e tem Claus Clüver, professor do Departamento de Literatura Comparada na Universidade de Indiana, como um dos seus fundadores; e na Alemanha, Intermidialidade (Intermedialität) surge como um campo autônomo de pesquisa. Nas análises intermidiáticas, para lidar com as obras de partida e de chegada, terminologia que não se fecha no paradigma linear origem, meio e fim, é preciso construir o modus operandi. O direcionamento não é dado a priori da experiência com as obras em exame. Experiência esta que pode vir do contato direto ou indireto com a modalidade, ou seja, da atuação como artista, leitor ou expectador, mas que requer a ?produção de presença? diante das ?coisas do mundo?. Em termos da análise, a proposta é atentar para o significante, antes que seja atropelado pelo significado; abstrair a dimensão do significado diz respeito a uma questão: o que sobra? E nos encaminha a privilegiar a experiência sensível em detrimento da interpretação intelectiva. O encaminhamento demanda duplo movimento: operar com as escolhas (recortes) do pesquisador sobre as escolhas dos autores, roteiristas, diretores, músicos, coreógrafos, bailarinos nos processos intermidiáticos de composição. Sem esquecer que o corpus selecionado, com seus diferentes contextos, configurações e suportes, configura material heteróclito que clama por um olhar e contato em presença, que ratifica o entendimento da literatura como experiência literária..

Cânone e disseminação das Literaturas de Língua Portuguesa

Norma Sueli Rosa Lima

O projeto investiga a propagação e/ou dispersão das literaturas de língua portuguesa no Brasil, mediante projetos nacionais ou identitários, na África, Europa e no Brasil, bem como a inter-relação dessas dinâmicas com o caráter de seus produtores (mulher, homem, outros) avaliando as suas trajetórias em face de suas constituições críticas, teóricas em seus diferentes contextos, inclusive nos de seus ensinos. Interroga-se de que modo as produções de autores como Abdulai Sila (Guiné Bissau), Maria Firmina dos Reis (Brasil), Machado de Assis (Brasil), Pepetela (Angola), Ruth Guimarães (Brasil), Patrícia Galvão (Brasil), Rita Lee (Brasil), autores da Revista Claridade (Cabo Verde), José Saramago (Literatura Portuguesa), Cláudio Manoel da Costa (Brasil), Abdias do Nascimento (Brasil) no contexto de suas produções, alcançaram ou não receptividade, tendo por base referências teóricas de nação por Benedict Anderson; de questões afro-brasileiras com Kabengele Munanga; do Pós-colonialismo por Inocência Mata; das relações de poder com Foucault; da alteridade com Clifford Geertz; de polifonia em Bakhtin e das relações de dependência com Silviano Santiago, entre outros. Está vinculado a Grupo de Pesquisa do CNPq e à área de Estudos Literários do Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística (PPLIN), com dissertações de mestrado em andamento de orientação. 

Trânsitos narrativos: mobilidade social, cultural e política no romance contemporâneo

Paulo César de Oliveira

Este projeto de pesquisa vincula-se ao programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística (PPLIN/UERJ) e tem por objetivo estudar ficcionistas contemporâneos, em perspectiva comparada, no Brasil e no mundo e que se pautam por um intenso hibridismo textual que convoca o leitor crítico à reflexão acerca do intercâmbio de gêneros literários e textuais que vêm sustentando nossa tese, de que a mathesis, conforme bem definida por Roland Barthes (1987), é uma das grandes forças da literatura – a força dos saberes – a demandar uma utopia da pesquisa em que literatura, teoria, educação e cultura se apresentam como campos cooperativos. Os autores inicialmente estudados serão (1) Bernardo Carvalho, com os romances O filho da mãe e Simpatia pelo demônio; (2) Bernardo Kucinski, com seu romance K: relato de uma busca, e sua novela Os visitantes; (3) Michel Laub, com Diário da queda e A maçã envenenada; (4) Chico Buarque, no romance O irmão alemão; e (5) Milton Hatoum, com o romance A noite da espera; (6) Paraíso, de Tatiana Salem Levy; e (6) Assim na terra como embaixo da terra, de Ana Paula Maia. Serão lidos, em viés comparativo, sempre que possível, na investigação dos processos de trocas interculturais e transculturais estabelecidos na leitura de (1) Formas de voltar para casa, de Alejandro Zambra; (2) Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos; (3) O caminho de Ida, de Ricardo Piglia e (4) Os emigrantes e Austerlitz, de W. G. Sebald. Problematizaremos, no conjunto de romances escolhidos, as antinomias do mundo globalizado, principalmente quanto às tensões entre a globalização pensada (1) como fábula, (2) como perversidade e (3) como possibilidade, conforme propôs Milton Santos (2002), e as formas como essas contradições são ficcionalizadas nas obras escolhidas. Discutir ainda as formas de representação da guerra, do terrorismo, das catástrofes e das emblemáticas relações interpessoais em tempos de imperativos tecnológico-midiáticos, ampliando o escopo das pesquisas iniciadas quando de meu ingresso na FFP/UERJ, destacando neste momento as relações entre representação ficcional e história, enfatizando o problema da ética em um mundo de cidadãos-consumidores. Com isso, pretendemos ampliar o pensamento crítico no campo da Teoria Literária, consolidando campos cooperativos em torno de uma poética do romance brasileiro contemporâneo identificada com uma poética-mundo, representada pelos autores estrangeiros aqui trazidos a debate, mostrando sua importância no processo de formação docente na pós-graduação e com intercâmbios na graduação.

Shirley Carreira

Poéticas em trânsito: identidade cultural, memória e deslocamentos na literatura contemporânea

O projeto visa à análise comparativa de narrativas contemporâneas produzidas por escritores migrantes de diferentes etnias sob o enfoque da confluência entre processos mnemônicos e a representação literária do trânsito identitário, cultural e espacial. Ao examinar o processo de inserção social do indivíduo que passa pela experiência da desterritorialização, dar-se-á ênfase às implicações da tríade memória, esquecimento e silêncio nas novas configurações identitárias resultantes do deslocamento. Buscar-se-á, ainda, verificar se a arquitetura dos textos selecionados reproduz a temática desenvolvida no âmbito do universo ficcional. O projeto está vinculado à Linha de Pesquisa “Literatura, Teoria e História” e ao grupo de pesquisa Poéticas da Diversidade, cadastrado no CNPq.

Figurações do insólito na literatura contemporânea

A pesquisa tem por objetivo investigar as figurações do insólito nas obras de autores contemporâneos, em língua portuguesa e inglesa, buscando verificar em que medida os acontecimentos insólitos concorrem para a releitura e redimensionamento de fatos, personagens históricos e contextos socioculturais representados na ficção. Na literatura contemporânea, é possível perceber a irrupção do insólito como estratégia de construção narrativa, envolvendo fatores tais como o conhecimento de mundo do leitor empírico, a existência de autores e leitores potenciais, a imbricação de diversos gêneros textuais e o diálogo intertextual. Busca-se analisar, assim, a presença do insólito em múltiplas vertentes da narrativa ficcional a ele vinculadas. O corpus literário analisado abrangerá obras de autores contemporâneos, podendo, entretanto, estabelecer diálogo com obras de autores de outros períodos literários. Projeto vinculado ao Grupo de Pesquisa CNPq Nós do Insólito: vertentes da ficção, da teoria e da crítica.