PROJETOS DE PESQUISA - ESTUDOS LITERÁRIOS

 

Linha 1: Literatura, Teoria e História

 

Representações da Violência na Literatura em Língua Portuguesa

Eloisa Porto Corrêa Allevato Braem

Este projeto de pesquisa tem o objetivo de investigar representações da violência em obras literárias produzidas na língua portuguesa, nos últimos séculos, prioritariamente, em diálogo com áreas do conhecimento que também estudem o tema proposto, como a História e o Direito. Embasados em pesquisas de Michel Foucault sobre a Microfísica do Poder (1979), a história da prisão e dos mecanismos de Vigiar e Punir (1975); de Maria Cecília Minayo a respeito de Conceitos, teorias e tipologias de violência (2009) e de Pierre Bourdieu sobre O Poder Simbólico (1992) e A Dominação Masculina (1999), entre outros, abordaremos algumas formas de violência representadas em obras ficcionais de autores como Alexandre Herculano, Raul Brandão, José Louzeiro, José Saramago e Mia Couto. O projeto se vincula à Linha de Pesquisa “Literatura, Teoria e História” do programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística (PPLIN-UERJ), à Iniciação Científica em desenvolvimento “O Direito na Literatura e no Cinema” com fomento UERJ  (PIBIC-SR2) e aos grupos de pesquisa Nós do Insólito e Literaturas, Artes Visuais e Formação de Professores, certificados pela UERJ e pelo CNPq.

Iza Quelhas

Os Regionalismos na construção da Literatura Brasileira

Esta pesquisa investiga o romance, na literatura brasileira, com marcas do Regionalismo, ao promover releituras da tradição e da ruptura no cânone. Com Walter D. Mignolo, em Histórias locais/projetos globais – colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar (2003), considera-se que essa literatura realiza o movimento de “habitar” a língua. Com um elenco de personagens subalternos, silenciados ou excluídos, a literatura produz imagens da voz, em posição de relevância e protagonismo. No Brasil, as regiões destacam a pluralidade de “colonizações”, no contexto geográfico e respectivas  temporalidades históricas. A partir dessa ideia, o Barroco e o Neobarroco (SARDUY, 1974; 1987) funcionam como eixo interpretativo que  indaga domínios, e dá relevância à profusão de elementos decorrente da mistura e do hibridismo cultural na história social e literária. Na recusa a uma história conclusiva e fechada, os regionalismos exploram os descentramentos da língua em seus usos, problematizam inclusive os conceitos de literatura e de texto literário. Para Irlemar Chiampi, em seu livro Barroco e Modernidade (1998), no Barroco “(...) o morto continua falando”: a meta-história.  Desde o romance romântico, o regionalismo problematiza uma literatura hegemônica para abarcar os sentidos de nação e de nacionalidade, e indaga a pertinência de um “centro” político, cultural e histórico num país que ignora sua diversidade, ao apequenar a importância das desigualdades sociais na produção artística. A literatura, que enfatiza elementos locais, reunida em torno de regionalismos, aponta polêmicas entre  críticos e autores da literatura brasileira. Estes oscilam entre a aceitação ou recusa, quer por considerá-lo um conceito ultrapassado, quer por representar um atestado de baixa qualidade. Mário de Andrade, por exemplo, num determinado momento, associou o regionalismo a uma “praga”, ao referir-se, provavelmente, a uma literatura de “fachada”, “pitoresca”, que se notabiliza pela ênfase no aspecto ornamental da linguagem visando um “nacionalismo declamatório” (BOSI, s/d). Do Romantismo ao Modernismo, no meio do caminho, tem-se a obra de Euclides da Cunha e a reflexão de um antropólogo, Gilberto Freyre, que sinaliza, em seus ensaios, um olhar desconfiado em relação ao cosmopolitismo do Sudeste. Freyre denunciou o apagamento de diferenças sociais, culturais  e históricas de regiões que compõem o que se chama Brasil. Essas diferenças constituíram motivo de rechaçamento pelos modernos da primeira geração, empolgados, em sua maioria, com o brilho das vanguardas europeias. Após um século de Modernismo(s) na literatura brasileira, o Regionalismo assume outro fôlego, ultrapassa as antíteses do localismo versus universalismo, e propõe  possibilidades de leitura. O romance reúne condições para ampliar o conceito de autoria, a apropriação da tradição oral, sem delimitar origens, mas sim propor  releituras de modos de falar, modos de dizer e modos de fazer literatura no tempo e no espaço da cultura. A partir de 1930, principalmente, o romance apresenta, mesmo à revelia de alguns autores e críticos, uma reivindicada ruptura política e estética, que incorpora leituras da permanência e ruptura das tradições. Busca-se, portanto, neste projeto construir um tecido argumentativo para valorizar os regionalismos, considerada a premissa de que o termo está em construção na literatura brasileira e no âmbito da literatura latino-americana.

Naturalismos no final do século XIX (1870-1920)

Leonardo Mendes

Na historiografia tradicional brasileira, o naturalismo ocupa uma posição rebaixada. Ele aparece como uma literatura do intervalo, situada entre duas estéticas consideradas mais autênticas e, por isso, mais valorizadas e estudadas: o romantismo e o modernismo. Sendo assim, o naturalismo é apresentado, via de regra, como uma literatura falsa e equivocada. Falsa porque era uma voga importada (e já ultrapassada) da França, logo ?estrangeira? ao Brasil; equivocada porque misturava arte com ciência. Tanto a hostilidade à ciência quanto a eleição do ?nacional? como critério de valor são do imaginário romântico. É certo que a historiografia ?romântico-modernista? canonizou algumas obras naturalistas, como O primo Basílio (1878), de Eça de Queirós, e O cortiço (1890), de Aluísio Azevedo, mas a consagração ocorre apesar do equívoco naturalista, que é inegociável. No Brasil, escritores dominantes como Machado de Assis e José Verissimo impuseram ao naturalismo uma resistência robusta que se perpetuou na historiografia do século XX. A materialidade dos enredos naturalistas era desconcertante para a elite letrada e por isso a historiografia negligenciou essa produção (MENDES, 2014). Rebaixado e esquecido, o naturalismo oitocentista é um continente desconhecido. Ele é contemporâneo ao crescimento das cidades, à industrialização da imprensa e ao barateamento dos livros. Muitos escritores do fim do século XIX se associaram ao naturalismo como forma de reivindicar o novo e o moderno. O objetivo deste projeto é prosseguir o trabalho de pesquisa desse corpus, identificando escritores e escritos naturalistas esquecidos, marginalizados ou de menor ?capital simbólico? (BOURDIEU, 1990). Abandonamos a visão da história literária fechada sobre um território e tratamos o naturalismo oitocentista como manifestação literária em escala transnacional, capaz de produzir obras de várias vertentes (BAGULEY, 1990) e de se adaptar a diferentes realidades de diferentes países, a ponto de ter se tornado ?une vogue planétaire? (BECKER & DUFIEF, 2018). Ao conceber o naturalismo como uma temporalidade transnacional (1870-1920), a pesquisa adota um ponto de vista não-evolucionista que abandona noções caras à historiografia tradicional, como ?atraso cultural? e ?influência? (CASANOVA, 1999), assim como considera as batalhas e o equilíbrio de poder que organizam o campo literário local e global (BOURDIEU, 1990).

Madalena Vaz Pinto

Literatura fora de si: inespecificidade e práticas interartísticas

Um olhar sobre a produção contemporânea permite constatar a existência de uma heterogeneidade dificilmente circunscrita em períodos e gêneros estabelecidos. Assiste-se à desestabilização da ideia da arte associada aos valores da autonomia e da originalidade e ao surgimento de práticas híbridas que colocam em tensão meios e suportes. Dir-se-ia que a queda da aura iniciada no séc. XIX não para de se expandir em direção a experiências de não pertencimento. Ler o contemporâneo, habitá-lo, parece exigir um esforço de invenção de formas, no caso da literatura, da abertura ao diálogo com outras artes: as artes plásticas, música, cinema, teatro, etc. Formas mutantes, portanto, que se se apresentam como literatura, não podem mais ser lidas unicamente por meio de categorias literárias tais como ?autor?, ?texto? ?estilo?, ?sentido?. Diante desse panorama, gerador não raras vezes de um mal-estar sensível e terminológico, exige-se um espectador emancipado capaz de trabalhar no ato da leitura uma experiência estética que vá além da descrição de formas, viabilizando novas partilhas entre o que se sente e o que se diz. Atrelada a esta partilha, dá-se um jogo entre presença e interpretação crítica, entre experienciar o texto literário e pô-lo em ação no mundo. O Projeto vincula-se ao Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística da Faculdade de Formação de Professores da UERJ (PPLIN), na área de Estudos Literários, na Linha de Pesquisa "Literatura, Teoria e História"

Aproximações da poética tavariana: literatura, experimentação, inespecificidade

Percorre o projeto literário de Gonçalo M. Tavares a indagação sobre o estatuto do literário, não com pretensões a uma possível redefinição, mas antes como abertura de espaço que assegure a possibilidade de experimentação e capacidade inventiva das quais a ficção não deve abrir mão. Desse lugar de liberdade e risco o autor tem produzido textos de diferentes tonalidades e formas, alguns próximos a gêneros mais tradicionais, outros de difícil classificação. Seu primeiro livro, Livro da dança, é publicado em 2001. Composto de um conjunto de fragmentos, (poemas? aforismos?), nele se apresenta o ?Projeto para uma poética do movimento?. Propomos pensar Livro da dança como enunciador de um gesto autoral, subjetividade movente, dançante, experimental, onde aquele que dança funciona como equivalente daquele que escreve: não dizer eu, quem escreve não deve dizer eu. O autor como corpo afetado e produtor de afetos no qual atuam forças acionadas por outros corpos, outros textos, outros ?eus?, ?Não repetir a ideia que cada corpo tem, cada corpo só tem uma ideia,/Não repetir a ideia que cada corpo tem./Deitar o corpo fora depois de cada corpo,/Não repetir o corpo. (TAVARES, 2001, p. 59). Verifica-se nos textos gonçalianos o que poderíamos chamar de ?pactos autorais variáveis?, textos nos quais a autoria se apresenta de forma mais coesa e estável a par de outros declaradamente permeáveis à influência, como sugere o verbete Harold Bloom do livro Biblioteca: ?A única angústia de homem sensato é a angústia da não influência.? (TAVARES: 2019, p. 63) Ser um autor do seu tempo não significa, no caso de Gonçalo M. Tavares, perpetuar o discurso da crise nem endossar a negatividade como opção intelectual. A poética tavariana assenta em uma percepção de humanidade múltipla e complexa, simultaneamente capaz de altruísmo e crueldade, da qual não se exclui a possibilidade do novo e do acontecimento. Não há, no assumir desta posição, qualquer resquício de ingenuidade, mas antes um modo intempestivo de habitar o seu tempo, o que o aproxima da noção de contemporâneo como pensada por Agamben: ?adere [ao seu tempo] e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias? (AGAMBEN: 2009, p. 59); percebe o escuro sob as luzes do presente e ?está à altura de transformá-lo e de colocá-lo em relação com outros tempos? (AGAMBEN: 2009, p. 72). Em um primeiro momento, o projeto irá deter-se em um conjunto de textos do autor no qual se incluem romances e textos pertencentes às séries O Bairro, Enciclopédia e Literatura Bloom. Em seguida, serão inseridos no projeto textos dos autores portugueses Almada Negreiros, Fernando Pessoa, Maria Gabriela Llansol e Vergílio Ferreira. Não obstante diferenças de estilo, tonalidade afetiva e momento histórico, há nesses autores questões relativas à experimentação com a linguagem, hibridação de gêneros e produção de subjetividade que permitem aproximações com a poética de Gonçalo M. Tavares. O Projeto vincula-se ao Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística da Faculdade de Formação de Professores da UERJ (PPLIN), na área de Estudos Literários, na Linha de Pesquisa ?Literatura, Teoria e História?. Descrição da Linha de Pesquisa: A constituição desta linha tem como foco o estudo da literatura, de seus fundamentos teóricos e reconfigurações históricas. Com isso, volta-se tanto para as correntes e movimentos da literatura e da teoria literária em diferentes épocas quanto para seus desenvolvimento e projeção na contemporaneidade. A linha de pesquisa proposta é integrada por pesquisadores que desenvolvem trabalhos em Literaturas do século XIX ao XXI e outras Artes, ressaltando o diálogo interartístico e interdisciplinar.

Maria Cristina Cardoso Ribas

Modos de ver, modos de ser: experiência literária e(m) conexões intermidiáticas e transculturais

Trata-se do Projeto Prociência em sua quarta renovação. Atualizando o principal objetivo da reflexão desenvolvida como pesquisador e docente no projeto original, pretendemos entender a Literatura, no espaço contemporâneo do mundo, como experiência literária não apenas sob domínio do intelecto, mas como requisição de uma sensibilidade intelectiva e corpórea voltada às diversas materialidades e conexões que as constituem, nos controversos limites das artes com as mídias em circulação. Espera-se reorganizar o olhar e a escuta para as produções artístico-literárias em sua constituição intermidiática, abrindo espaço para uma leitura sinestésica, de base não só intelectiva, mas experiencial, e marcada pela ?presença?; imprimir uma dimensão diferenciada à captação dos textos literários de modo a entender a tessitura granulada e plural das artes e mídias constituintes, em suas fronteiras quase inexistentes; desenvolver a leitura de imagens e a descrição do pictural, como referências e combinações intermidiáticas, no corpo do texto literário; construir o modus operandi nas análises intermidiáticas entre textos literários e adaptações. É preciso operar com recortes, vindos de escolhas do analista sobre as escolhas dos autores, roteiristas, diretores, músicos, coreógrafos, bailarinos, em função das obras e mídias em diálogo, com seus diferentes contextos, configurações e materialidades. Ressalta-se que cada vez mais vem sendo disseminado o enfoque intermidiático no campo das Letras, em várias Universidades brasileiras (UFMG, Unimontes, UFJF, UFRGS, PUC-Rio, UFF) mesmo porque, sendo um estudo teórico-crítico bastante inclusivo, de base não hierarquizante, acolhe as diversas artes e mídias em circulação e representa uma abertura para a fruição da produção artística contemporânea. E, conforme nossa percepção ao longo do último triênio, esta fruição ganha contornos para além do intelecto, um dos tópicos que pretendemos estudar nesta formulação da pesquisa . Os Estudos das Intermidialidades inicialmente incluem duas tendências simultâneas em países diferentes: nos Estados Unidos, com os chamados Estudos Interartes, empreende uma atualização das Artes Comparativas e tem Claus Clüver, professor do Departamento de Literatura Comparada na Universidade de Indiana, como um dos seus fundadores; e na Alemanha, Intermidialidade (Intermedialität) surge como um campo autônomo de pesquisa. Nas análises intermidiáticas, para lidar com as obras de partida e de chegada, terminologia que não se fecha no paradigma linear origem, meio e fim, é preciso construir o modus operandi. O direcionamento não é dado a priori da experiência com as obras em exame. Experiência esta que pode vir do contato direto ou indireto com a modalidade, ou seja, da atuação como artista, leitor ou expectador, mas que requer a ?produção de presença? diante das ?coisas do mundo?. Em termos da análise, a proposta é atentar para o significante, antes que seja atropelado pelo significado; abstrair a dimensão do significado diz respeito a uma questão: o que sobra? E nos encaminha a privilegiar a experiência sensível em detrimento da interpretação intelectiva. O encaminhamento demanda duplo movimento: operar com as escolhas (recortes) do pesquisador sobre as escolhas dos autores, roteiristas, diretores, músicos, coreógrafos, bailarinos nos processos intermidiáticos de composição. Sem esquecer que o corpus selecionado, com seus diferentes contextos, configurações e suportes, configura material heteróclito que clama por um olhar e contato em presença, que ratifica o entendimento da literatura como experiência literária.

NuPELLI- Núcleo de Pesquisa e Extensão em Literatura, Leitura e Intermidialidade

Ante as novas demandas de formação de competências e habilidades propostas pela BNCC e da interatividade via remota e modelo híbrido na pós pandemia, as textualizações se entrelaçam em modos diversos, justapondo gêneros e mídias e demandando transformações urgentes, com destaque a novas experiências de leitura voltadas aos vários meios, suportes e materialidades. A crescente migração das narrativas e a expansão das formas de narratividade e produção poética nas últimas décadas, mobilizada pela emergência de novos meios técnicos de registro, processamento e transmissão de palavras, sons e imagens demandam, portanto, um modo diferenciado de ler, que implica outras formas de percepção e contato com os textos em circulação. Tais processos  contribuem com a emergência das experiências intermidiais na produção literária contemporânea; dentre elas, uso de hiperlinks em arquivos digitais, a experimentação verbivocovisual na tela, as interseções poesia, voz, locução coreográfica e a condição transcultural das adaptações literárias para cinema e HQs. Ressalta-se, ainda, a interferência deste conjunto nos processos de apropriação, releitura e reescritura. Preocupado com o público externo nessa avalanche digital que beneficia e atropela as pessoas sem perguntar suas condições econômicas, técnicas ou escolha individual, o projeto tem duplo alcance: colabora tanto para o desenvolvimento de competências e habilidades para a leitura integrada em diferentes mídias e linguagens, quanto para o entendimento de Literatura como experiência literária não apenas sob domínio do intelecto; mas como requisição de uma sensibilidade intelectiva (Gumbrecht, 2010), alerta às diversas materialidades e conexões que constituem as artes e mídias. O projeto terá ainda o apoio da pesquisadora alemã Irina Rajewsky para a abordagem literária da Intermidialidade, o que impacta os modos de ler e tecer a rede palavra-som-imagem nas narrativas em conexão.

 E os feminismos, a que será que se destinam?

Maximiliano Gomes Torres

O presente projeto de pesquisa visa a investigação das relações entre literatura, cultura e sociedade, numa perspectiva interseccional e decolonial, com base em teorias feministas, transfeministas, queer e estudos de gênero. Ao questionar como a história da sexualidade, com seus diferentes conceitos e modificações, se reflete, ainda hoje, no ambiente sociocultural, valorizando a constituição de um modelo cisheteronormativo de sujeito masculino, percebe-se a configuração do imaginário pelo esteriótipo, instituído pelos canais de mídia, pela arte e pela educação, formando, assim, subjetividades “comportadas” e corpos disciplinados. Ao debater, pelo viés das interseccionalidades e das decolonialidades, as relações de gênero, corpo e sexualidades com outros marcadores de diferenças sociais (classe, raça, etnia), colonialismo, neocolonialismo e o lugar das práticas discursivas hegemônicas e suas assimetrias de poder nas relações intergenéricas, buscam-se aberturas, com uma importante chave de reflexão, que permite o alargamento e a compreensão da matéria crítica literária. Afinal, se na década de 1960, Carol Hanish nos revelou que “o pessoal é político”, essa nova geração de feministas nos faz entender que o político é pessoal e que a pauta é coletiva e horizontal; se faz na presença, no corpo a corpo, na ocupação e na voz: um feminismo que se apresenta e se constitui pela performatividade; um feminismo que não marca a distinção entre teoria e prática. Nesse sentido, pensar a que se destinam os feminismos, é propor um aprofundamento na problematização de propostas feministas contemporâneas, tanto no que se refere às mudanças sociais relacionadas às lutas pelas mulheres cis e trans, quanto aos trabalhos teóricos e críticos voltados para a consciência da necessidade do equilíbrio e respeito sobre a diferença e para o desafio das relações de dominação, em busca de novas formas de democracia.

Literaturas de Língua Portuguesa e diversidades étnica, de gênero e/ou sexual

Norma Sueli Rosa Lima

Desde a década de 1980 estudos revisam os papéis outorgados a categorias consideradas inferiorizadas como as da mulher, do/da negro/negra, do gay em reflexões dessas categorias em nações que foram colonizadas. A esses conhecimentos outros foram adicionados, como os do Pós-colonialismo, amplo movimento em constante transformação, como o entende Jane Hiddleston em Pós-colonialismo (2021), por veicular múltiplas respostas políticas, econômicas, culturais e filosóficas ao colonialismo, no campo de estudo que anuncia reflexão ética preocupada com as relações entre “o eu e os outros”. Boaventura de Sousa Santos, em O futuro começa agora: da pandemia à utopia (2021) evidenciou as desigualdades sociais, redimensionando a necessidade da reativação de práticas de resistência e de aspirações utópicas que superem a contradição ainda presente entre civilização e barbárie. Há de se construir uma saída para o futuro do mundo trazendo para a cena aqueles e aquelas que, na história colonial, foram excluídos, segregados, oprimidos, silenciados e negados como bárbaros. Acredito que a Literatura colabore para o que Boaventura denominou como “utopia realista” na qual o eu (o leitor/a leitora) e o outro (o texto literário) possam se reconhecer e se irmanarem em uma rede de afetos, empatia e humanidades, como uma “revoada de vagalumes”, - para utilizar a feliz expressão com que Silviano Santiago, tendo pinçado a expressão do conto “As margens da alegria”, de Guimarães Rosa, intitulou o último capítulo do seu livro Aos sábados, pela manhã: sobre autores & livros (2013) – nos tempos tão difíceis e de retrocesso em que vivemos.

O projeto investiga a diversidade na presença de autoras das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e de autores/autoras da Literatura Brasileira , que tratem das temáticas do feminino, do sexual ou do étnico no literário nas obras de Vera Duarte, Evel Rocha, Amílcar Cabral, Pepetela, Paulina Chiziane, Lima Barreto, Rita Lee e Luedji Luna. Está associado ao Grupo de Pesquisa UERJ/CNPq Brasil Cabo Verde: Literatura, História e Ensino.

Pretende:

Comparar como as tensões entre o hegemônico e o contra-hegemônico se desenvolvem na temática da diversidade em narrativas da Literatura Brasileira e da Literatura Cabo-verdiana, nas suas especificidades de contextos de produção;

Verificar o diálogo com a diversidade de gênero na sua conexão com mitos da fundação das literaturas  os quais o colonialismo europeu tentou abafar e que, na escrita narrativa, surgem como pontos de resistência;

Identificar na (des)construção dos gêneros a percepção da diversidade não só temática, mas da própria linguagem em seus suportes e formas;

Perceber a diversidade étnica dos mitos africanos/afro-brasileiros representativos da origem e dos eventos reatualizados na escrita literária, em confronto com perspectiva linear da modernidade;

Denunciar as violências física e psicológica sofridas pelas mulheres nas configurações históricas, políticas e sociais que as narrativas engendram.

Trânsitos narrativos: mobilidade social, cultural e política no romance contemporâneo

Paulo César de Oliveira

Este projeto de pesquisa vincula-se ao programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística (PPLIN/UERJ) e tem por objetivo estudar ficcionistas contemporâneos, em perspectiva comparada, no Brasil e no mundo e que se pautam por um intenso hibridismo textual que convoca o leitor crítico à reflexão acerca do intercâmbio de gêneros literários e textuais que vêm sustentando nossa tese, de que a mathesis, conforme bem definida por Roland Barthes (1987), é uma das grandes forças da literatura – a força dos saberes – a demandar uma utopia da pesquisa em que literatura, teoria, educação e cultura se apresentam como campos cooperativos. Os autores inicialmente estudados serão (1) Bernardo Carvalho, com os romances O filho da mãe e Simpatia pelo demônio; (2) Bernardo Kucinski, com seu romance K: relato de uma busca, e sua novela Os visitantes; (3) Michel Laub, com Diário da queda e A maçã envenenada; (4) Chico Buarque, no romance O irmão alemão; e (5) Milton Hatoum, com o romance A noite da espera; (6) Paraíso, de Tatiana Salem Levy; e (6) Assim na terra como embaixo da terra, de Ana Paula Maia. Serão lidos, em viés comparativo, sempre que possível, na investigação dos processos de trocas interculturais e transculturais estabelecidos na leitura de (1) Formas de voltar para casa, de Alejandro Zambra; (2) Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos; (3) O caminho de Ida, de Ricardo Piglia e (4) Os emigrantes e Austerlitz, de W. G. Sebald. Problematizaremos, no conjunto de romances escolhidos, as antinomias do mundo globalizado, principalmente quanto às tensões entre a globalização pensada (1) como fábula, (2) como perversidade e (3) como possibilidade, conforme propôs Milton Santos (2002), e as formas como essas contradições são ficcionalizadas nas obras escolhidas. Discutir ainda as formas de representação da guerra, do terrorismo, das catástrofes e das emblemáticas relações interpessoais em tempos de imperativos tecnológico-midiáticos, ampliando o escopo das pesquisas iniciadas quando de meu ingresso na FFP/UERJ, destacando neste momento as relações entre representação ficcional e história, enfatizando o problema da ética em um mundo de cidadãos-consumidores. Com isso, pretendemos ampliar o pensamento crítico no campo da Teoria Literária, consolidando campos cooperativos em torno de uma poética do romance brasileiro contemporâneo identificada com uma poética-mundo, representada pelos autores estrangeiros aqui trazidos a debate, mostrando sua importância no processo de formação docente na pós-graduação e com intercâmbios na graduação.

Shirley Carreira

Poéticas em trânsito: identidade cultural, memória e deslocamentos na literatura contemporânea

O projeto visa à análise comparativa de narrativas contemporâneas produzidas por escritores migrantes de diferentes etnias sob o enfoque da confluência entre processos mnemônicos e a representação literária do trânsito identitário, cultural e espacial. Ao examinar o processo de inserção social do indivíduo que passa pela experiência da desterritorialização, dar-se-á ênfase às implicações da tríade memória, esquecimento e silêncio nas novas configurações identitárias resultantes do deslocamento. Buscar-se-á, ainda, verificar se a arquitetura dos textos selecionados reproduz a temática desenvolvida no âmbito do universo ficcional. O projeto está vinculado à Linha de Pesquisa “Literatura, Teoria e História” e ao grupo de pesquisa Poéticas da Diversidade, cadastrado no CNPq.

Figurações do insólito na literatura contemporânea

A pesquisa tem por objetivo investigar as figurações do insólito nas obras de autores contemporâneos, em língua portuguesa e inglesa, buscando verificar em que medida os acontecimentos insólitos concorrem para a releitura e redimensionamento de fatos, personagens históricos e contextos socioculturais representados na ficção. Na literatura contemporânea, é possível perceber a irrupção do insólito como estratégia de construção narrativa, envolvendo fatores tais como o conhecimento de mundo do leitor empírico, a existência de autores e leitores potenciais, a imbricação de diversos gêneros textuais e o diálogo intertextual. Busca-se analisar, assim, a presença do insólito em múltiplas vertentes da narrativa ficcional a ele vinculadas. O corpus literário analisado abrangerá obras de autores contemporâneos, podendo, entretanto, estabelecer diálogo com obras de autores de outros períodos literários. Projeto vinculado ao Grupo de Pesquisa CNPq Nós do Insólito: vertentes da ficção, da teoria e da crítica.

Diálogos estéticos/políticos ao Sul: mulheres e escritas de resistência no contexto da língua portuguesa

Simone Pereira Schmidt

A pesquisa desenvolve-se em torno do tema das escritas de resistência por mulheres, nos países africanos de língua portuguesa, no Brasil e em Portugal (enfocando especialmente os períodos de autoritarismo de Estado: o colonialismo salazarista e a ditadura militar no Brasil). Tomando como mote o tema da resistência, pretende-se investigar como as mulheres enfrentaram e registraram nas literaturas de seus países as experiências desses períodos históricos. Neste empreendimento de leitura, serão importantes as contribuições epistemológicas e políticas que o feminismo tem a nos oferecer, particularmente em contextos históricos regressivos, entendendo a potencialidade de resistência e transformação que práticas e teorias feministas representam, desde sua origem. Nas escritas de autoria feminina que serão objeto de investigação, revelam-se questões passadas e presentes onde se intersectam gênero, raça, classe, etnia e sexualidade, fazendo ressoar vozes de resistência não somente aos regimes políticos ditatoriais, mas também ao patriarcado, às tiranias e às violências disseminados nas sociedades que enfrentaram tais regimes e que ainda lidam, de forma problemática, com a sua memória.