PROJETOS DE PESQUISA - ESTUDOS LINGUÍSTICOS

Linha 1: Teoria e análise linguística

CARTOGRAFIA DAS POLÍTICAS E DAS PRÁTICAS DE ACOLHIMENTO A REFUGIADOS: perspectivas discursivas em convergência para análise de problemas contemporâneos

Bruno Deusdará

Contemplando a proposta de articulação teórica entre perspectivas discursivas de base enunciativa e de base interacional e a investigação sobre os processos contemporâneos de subjetivação, elaboramos objetivos gerais de investigação que igualmente anunciam como condição necessária para que esse tipo de encontro conceitual se realize o exercício de uma prática de investigação assumidamente interventiva. A partir desses requisitos fundamentais, definimos assim os seguintes objetivos gerais: (i) promover indagações e reflexões a respeito do tema do refúgio, no âmbito dos estudos do discurso; (ii) compreender de que modo se efetuam a configuração dos sujeitos vinculados às políticas e às práticas de acolhimento a refugiados; (iii) propor a articulação entre abordagens enunciativa e interacional da produção verbal situadas, a partir do projeto de pesquisar-intervir (em) processos em movimento; (iv) atuar no debate público a respeito das políticas de integração de migrantes voluntários e refugiados, no contexto da Cátedra Sérgio Vieira de Mello (ACNUR/ONU) e dos fóruns da sociedade civil organizada a respeito da temática; (v) promover a formação de pesquisadores na área de Linguística Aplicada e áreas afins, visando à apropriação de técnicas de pesquisa e de aparato teórico-metodológico em perspectiva enunciativa, bem como ao desenvolvimento da produção de textos acadêmicos. Como consequência, apresentamos os seguintes objetivos específicos: i. investigar os sentidos atribuídos à integração nas diferentes versões da legislação sobre as migrações e o refúgio no Brasil; ii. analisar as concepções de língua e de sujeito falante subjacentes aos documentos oficiais (leis e declarações internacionais das quais o Brasil seja signatário); iii. relacionar os sentidos construídos na legislação com os direitos sociais e linguísticos das populações em situação de refúgio; iv. discutir modalidade de política de internacionalização que associa o intercâmbio de propostas teórico-conceituais à criação de um espaço de investigação centrado na própria experiência de internacionalização; v. investigar os sentidos atribuídos às políticas e às práticas de integração a refugiados em programas televisivos e documentários curtos de ampla circulação nas redes sociais; vi. mapear proximidade e afastamentos entre as perspectivas discursivas de base enunciativa e de base interacional; vii. avaliar a produtividade dessa articulação conceitual na investigação de narrativas de vida em contexto de migração forçada e voluntária; viii. contribuir com a sistematização das etapas metodológicas a serem desenvolvidas em estudo que envolva a articulação entre pesquisa-intervenção e as perspectivas discursivas; ix. avaliar a produtividade da utilização do método cartográfico em investigações no campo dos estudos do discurso; x. promover eventos e espaços de socialização com refugiados, evidenciando os impasses vivenciados por essa população; xi. contribuir com as reflexões propostas nos fóruns da área de Letras e Linguística a respeito da inserção do linguista nas ciências humanas e os processos de internacionalização demandados.

Leiturabilidade e avaliação da compreensão leitora sob a perspectiva da Psicolinguística Educacional​​

Katia Abreu

O presente projeto de pesquisa pretende desenvolver um estudo sobre leiturabilidade, compreensão e avaliação da compreensão leitora, sob a perspectiva da Psicolinguística, com vistas à Educação (ZAMANIAN; HEYDARI, 2012). Atesta-se, por resultados de exames nacionais e internacionais de grande escala, uma falha na formação básica de alunos brasileiros especialmente ao se considerar o desempenho em leitura (INEP, 2019). Toma-se a leiturabilidade focada na leitura de períodos para análise (SCOTT, 2009; MAIA, 2018),  com investigação em turmas do ensino fundamental, por meio de metodologia psicolinguística, como a técnica de leitura automonitorada e a de rastreamento ocular. Espera-se encontrar resultados que aprimorem as premissas teóricas da Psicolinguística, relacionadas aos estudos de leitura (KATO, 1985; LEFFA, 1996; MAIA, 2018, 2019), e que contribuam para a área educacional tanto no que diz respeito ao material de leitura a ser utilizado na prática pedagógica quanto aos procedimentos para a avaliação da compreensão leitora (FARRAL, 2012).

A formação e a organização de enunciados relacionais

Marcos Luiz Wiedemer

O presente projeto de pesquisa tem por objetivo descrever a formação e a organização de enunciados relacionais, em que investigamos construções que desempenham relações de coerência, tais como preposições, preposições complexas, conjunções, advérbios e outras unidades linguísticas, em que analisamos os usos desses itens e, com isso, explicitamos a fluidez dessas classes gramaticais, uma espécie de gradualidade, na medida em que podem ser inseridas em diferentes categorizações gramaticais a depender do contexto comunicativo. Como referencial teórico-metodológico, adotamos os pressupostos dos Modelos Baseados no Uso, que coadunam com o princípio de que o estabelecimento de convenções gramaticais é influenciado tanto por estrutura linguística, contexto social e pragmático quanto por aspectos cognitivos. No que concerne aos aspectos teórico-metodológicos, lançamos mão das abordagens qualitativa/quantitativa, em que focalizamos o modelo da Gramática de Construções (GOLDBERG, 2006, TRAUGOTT & TROUSDALE, 2013, CROFT, 2001 entre outros), que permite capturar as diferenças sutis de usos pragmático-discursivos empregados pelos usuários da língua em diferentes situações comunicativas. Com isso, o reconhecimento de categorias discretas reside na ênfase no discurso/texto e nas funções em usos empíricos. A investigação conjuga dados tanto sincrônicos quanto diacrônicos, com foco nos seguintes objetivos específicos: (i) investigar as construções formadas preposições complexas e/ou relatores circunstanciais; (ii) investigar a fixação de diferentes padrões construcionais hipotáticos; e (iii) o desenvolvimento de referenciais teórico-metodológicos. O projeto é vinculado ao Programa de Pós-graduação em Letras e Linguística (PPLIN/UERJ), área de concentração ?Estudos Linguísticos, linha de pesquisa ?Teoria e Análise Linguística?. Integra este projeto a pesquisa "Preposições complexas: gradiência e fixação de padrões construcionais do português brasileiro" (PROCIÊNCIA/FAPERJ).

Análise descritiva dos aspectos linguísticos da escrita de surdos em PBL2 ? interfaces entre textualidade, uso e cognição no estado de interlíngua

Roberto de Freitas Junior

A presente pesquisa, ligada ao Núcleo de Estudos sobre Interlíngua e Surdez (NEIS/UFRJ) tem por objetivo a construção de um banco de dados (Corpus NEIS) com textos escritos em diferentes gêneros discursivos produzidos por surdos, para levantamento e análise de fenômenos linguísticos de escrita relacionados à aquisição de português escrito como L2. Ainda, é objetivo do grupo, a partir das pesquisas desenvolvidas, a futura elaboração de propostas de materiais didáticos para ensino de português para surdos. Projeto vinculado ao Programa de Pós Graduação em Leras e Linguística da UERJ/FFP (PPLIN) CNPq: dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/4481596787655919.

Linha 2: Linguagem e sociedade

Discurso, produção de sentidos e práticas de leitura

Andréa Rodrigues

A partir dos conceitos de formação discursiva, texto, discurso, leitura, inseridos na proposta teórica da Análise do Discurso, o projeto discute o funcionamento discursivo de textos da mídia, documentos oficiais, leis, cartazes, filmes, fotografias, que remetam de alguma forma a questões ligadas à educação como um todo, havendo espaço para subtemas como ensino e usos da língua, políticas públicas, formas de significação do professor, do aluno, da escola, etc.

Por uma Internacionalização Crítica do Ensino Superior

Clarissa Menezes Jórdão

 O presente projeto de pesquisa dá continuidade a uma pesquisa anterior, que envolveu docentes e discentes de programas de pós-graduação de uma IES pública no Sul do Brasil. Agora, a pesquisa acontecerá junto a administradores responsáveis pela elaboração e implementação de políticas educacionais e linguísticas em IES públicas brasileiras. A ação principal será conhecer e analisar as práticas institucionais privilegiadas pelos responsáveis institucionais por políticas de internacionalização de programas de pós-graduação, a fim de pensar sobre alternativas para a práxis da internacionalização das universidades no Brasil. A metodologia adotada será a realização de entrevistas com voluntários, presencialmente ou a distância, buscando conhecer as perspectivas sobre o processo de internacionalização dos encarregados em posição administrativa interna nas IES participantes. Suas perspectivas serão então analisadas à luz do pensamento crítico voltado à decolonialidade, esta última concebida de forma integrada às epistemologias do sul.

Língua Estrangeira para crianças: identidades, ensino-aprendizagem, formação docente 

Apoiada em autores das áreas de formação docente (Gimenez, Cristóvão, Furtuoso, Santana, 2008; Fernández, 2008; Miller, 2009,2010, 2013; Celani, 2010; inter alia), para o ensino de língua estrangeira para crianças (LEC) (Rocha, 2006, 2008; Tonelli, 2007), identidade (Hall, 2003; Woodward, 2003; Moita Lopes, 2002) e da Prática Exploratória (Allwright, 2009; Allwright e Hanks, 2009; Miller, 2009, 2010), volto-me para estudo de LEC. Tal movimento envolve a problematização, discussão e encaminhamentos em relação à metodologia de ensino para essa faixa etária, visto que enfatiza-se a construção de uma abordagem que seja sensível ao contexto sócio-histórico cultural dos pequenos aprendizes. Dessa forma, estende-se a questões relativas ao planejamento de atividades de ensino-aprendizagem, seleção e/ou e material didático. Consequentemente, a pesquisa igualmente abre espaço para a investigação da formação do docente para atuar nesse nível de ensino, a qual carece de um olhar mais acurado, uma vez que, no momento, não se observa a existência de disciplinas específicas nas grades curriculares dos cursos de Letras no Brasil (Santos e Benedetti, 2009) para a discussão e práticas em LEC

Isabel C. R. Moraes Bezerra

Aprendizagens, letramentos e identidades: o agir discursivo para fazer parte de uma comunidade de prática

Apoiada na perspectiva ética e inclusiva de reflexão e pesquisa apontada pela Prática Exploratória (Allwright e Hanks, 2009; Miller 2013), volto o olhar sobre o letramento e a formação inicial e continuada do professor de línguas (materna e inglesa), entendendo-os como um processo de ingresso em uma comunidade de prática (Wenger [1998], 2008; Eckert e MaConnell-Ginett, [1997] 2010) na qual os professores em formação vivenciam mais intensamente o processo de letramento em língua materna e inglesa iniciado em suas práticas discentes anteriores. Na verdade, problematizo o ingresso nessa comunidade e a construção identitária profissional, ao analisar a socioconstrução discursiva de conhecimentos não apenas em aulas que ministro deste idioma, como também em reuniões com bolsistas de iniciação científica, iniciação à docência e orientandos de mestrado. Ao tentar estabelecer uma escuta mais acurada às questões trazidas pelos participantes nessas interações, proponho um espaço reflexivo com eles, entendidos aqui como praticantes exploratórios (em oposição à figura do ?sujeito de pesquisa? ou do ?informante?) que privilegie o ?trabalhar para entender? como o sofrimento ou o prazer, as dúvidas, as inquietações e as indagações que perpassam o processo de aprender a usar socialmente uma língua (a língua materna/portuguesa ou a língua inglesa), o processo de ser/tornar-se docente de línguas, questões pertinentes à seleção e uso de livros didáticos ou ainda a produção de material para o ensino de línguas. Some-se ainda a questão crucial de refletir sobre o processo de letrar-se academicamente tendo em vista os objetivos formativos de cada um e as relações de poder imbricadas em práticas de letramento na academia. Ao me permitir o contato com tais questões objetivo, da mesma forma, entender como este processo me afeta enquanto professora, formadora e pesquisadora.

Sobre professor e pesquisador: o papel do afeto na mão dupla das narrativas de experiências docentes

Com esta pesquisa, além de voltar o foco para a formação docente inicial e continuada, busco abarcar a formação do pesquisador. Ademais, focando ainda a interação e as narrativas em especial, busco mapear o processo sociodiscursivo de construção de nossos saberes sobre pesquisar, ensinar e aprender a língua inglesa bem como o de construção e performance de nossas identidades profissionais, ao mesmo tempo em que verifico possíveis instâncias de ressignificação das práticas de docência e de pesquisa. Para tanto, além de utilizar-me de teorizações advindas dos estudos de narrativas (Labov, 1972; Bastos, 2005; Moita Lopes, 2002; Linde, 1993, 2009), pretendo lançar mão de teorizações que envolvem questões de afeto a partir de uma perspectiva de socioconstrução discursiva por entender que os processos de construção de conhecimento e de reflexão profissionais não acontecem de forma estanque no nível cognitivo, sempre envolvendo a afetividade, conforme atestam Barcelos (2010), Silva e Lima (2009). Espero contribuir para a ampliação do escopo teórico em relação às seguintes instâncias: [a] Prática Exploratória ? ao propiciar um aprofundamento da significação de alguns construtos que serão foco da reflexão, quais sejam: ?desenvolvimento mútuo?, ?agência?, ?inclusão?; [b] estudos sobre construção de conhecimentos ? por aprofundar o olhar à relação que se estabelece entre cognição e afeto; [a] estudos da narrativa ? por aprofundar a contribuição para o entendimento acerca de como narrativizamos as experiências pessoais de forma a construir o sentido de quem somos, de como aprendemos, etc. nos contextos institucionais em que transitamos. Finalmente, esta pesquisa é desenvolvida no sentido de mobilizar os sentidos dos praticantes envolvidos para, ao estranharem o que fazem, perceberem uns aos outros e a riqueza da experiência humana, bem como outros caminhos a serem trilhados através da investigação sistemática.

Jefferson Evaristo

Políticas linguísticas e processos de internacionalização das línguas

 

Em um cenário de globalização, com os países cada vez mais unidos em trocas linguísticas, comerciais, econômicas, migratórias, religiosas e políticas, dentre outras, o fator linguístico ganha destaque inconteste. Por isso, inúmeras são as demandas da sociedade moderna que fazem com que as línguas sejam elemento de destaque no cenário mundial. Nesse sentido, é fundamental compreender políticas linguísticas e processos de expansão e promoção das línguas (processos de internacionalização). Aberto a todas as línguas, este projeto prioriza a língua portuguesa dentro das perspectivas da Lusofonia, da pluricentralidade e/ou da internacionalização, uma vez que esses são cenários prementes desta língua e que impactam de maneira indelével em seus múltiplos aspectos. Assim, nossa pesquisa se interessa por cenários que considerem a língua portuguesa em uma de suas muitas faces, como a de PLE, PL2E, PLA, PLAc, PLH, PLNM, PBE e outras. As abordagens pesquisadas envolvem primordialmente políticas linguísticas e processos de internacionalização e promoção. Seja com o português, seja com as outras línguas, também nos interessam questões sobre ensino, formação de professores, certificação, curricularização, difusão, diferenciação, variação, materiais didáticos, experiências docentes ou outro aspecto relevante para a discussão acerca do papel internacional das línguas e, particularmente, da língua portuguesa.

 

 

Gramática, texto, ensino e linguagem

 

Este projeto é caudatário do Laboratório de práticas de ensino de língua portuguesa, Lab-Pelp, sediado na UERJ/Maracanã. Pretendemos ser um espaço de discussões relacionadas ao ensino da língua portuguesa materna nos mais variados segmentos de ensino, oportunizando conhecimento contínuo sobre as múltiplas formas de aplicação e aprendizagem dos recursos linguísticos de nosso idioma, considerando suas particularidades em cada modalidade. Nesse sentido, articulamos uma discussão sobre gramática, texto, ensino e linguagem que se manifesta em diferentes contextos: materiais didáticos, práticas de ensino, experiências docentes, formação de professores, produção de texto e outros.

Efeitos de sentido das práticas de ensino da leitura e da escrita na história do Brasil: Língua, conhecimento e sociedade

Juciele Pereira Dias

Esta pesquisa tem como objetivo compreender como os efeitos de sentido das práticas de leitura e da escrita no Brasil se inscrevem, pela linguagem, na sociedade e na história. Partindo de uma tensão entre as tentativas de administração pública e a constituição do sujeito brasileiro e suas relações sociais, de um modo geral buscamos descrever e interpretar as diferentes formas de saber inscritas no ensino-aprendizagem da leitura e da escrita da “língua nacional” e suas relações com os processos de independência do Brasil (Gondra e Lima, 2022), constituindo uma unidade imaginária de Língua/Estado/Nação (Orlandi, 2007). Cabe salientar que, ao instituir a língua portuguesa, gramatizada para ser ensinada em meio aos processos de colonização linguística (Mariani, 2004), são inauguradas novas formas de dominação/liberdade do que deve ser ensinado na sociedade. Isso, por sua vez, implica na constituição de um cidadão brasileiro independente do português e ao mesmo tempo na segregação de outros povos. Trata-se de uma memória que se faz atualidade e determina imaginários linguísticos sobre a educação brasileira na contemporaneidade (Dias, 2012; Dias, Nogueira; Souza, 2021). Nesse sentido, a pesquisa traz como proposta a constituição de um arquivo de instrumentos e documentos sobre o ensino da(s) língua(s) do Brasil, da(s) leitura(s) e da escrita nessa(s) língua(s), que nos possibilitem analisar discursivamente essa história de uma perspectiva dos pontos de resistência de sujeitos segregados, em movimentos de emancipatórios no complexo jogo de saberes da instrução/educação. Para isso, a proposta tem dois eixos de estudos: o primeiro, voltado aos períodos definidos como de instabilidade política sociopolítica e econômica do Brasil dos processos de independência entre o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX; e o segundo, volta-se para a atualidade das políticas públicas de ensino tendo em vista a implementação da Base Nacional Comum Curricular.

Por uma semiótica do espaço digital: dos algoritmos à criação de lugares simbólico

Lucia Teixeira

Manar Hamad (2005; 2013; 2015) foi quem mais sistematicamente desenvolveu a ideia de uma semiótica do espaço, marcada, segundo ele, pela relação entre dois sistemas, um que contempla a autonomia dos movimentos do sujeito e outro que se refere à geometria estática dos lugares. O autor concebe o espaço como lugar de cruzamento potencial de programas narrativos, marcado por um recorte do contínuo espacial em unidades discretas, associadas tanto aos sujeitos quanto aos objetos em interação (cf. HAMAD, 2013). A virada digital que transformou os meios de comunicação e a vida social evidencia a necessidade de redimensionar a noção de espaço, deslocando-o de uma concepção física e arquitetural para um lugar simbólico dinâmico, em que se processam interações. A pesquisa aqui proposta pretende sistematizar bases teóricas para uma semiótica do espaço digital, considerando suas propriedades de metamorfose, fragmentação, continuidade, multiplicidade e encaixe de escalas (LÉVY, 2006). Por meio da análise de um corpus constituído por sites e redes sociais preferencialmente voltados para os temas da exposição de acervos de arte e de relatos e roteiros de viagem, pretende-se mostrar que a práxis enunciativa das mídias digitais não pode desconsiderar o componente tecnológico concretizado em conexões, redes, números, equações e algoritmos. Essa práxis terá de ser analisada por meio da ressignificação da experiência teórica de análise de textos e discursos produzidos em suportes tradicionais, com vistas à definição de parâmetros que efetivamente contemplem a particularidade do digital, sua “tecnodiscursividade”, caracterizada por “deslinearização, ampliação e imprevisibilidade” (PAVEAU, 2021, p.191), e os regimes de crença que instaura (FONTANILLE, 2013; 2015 a; 2015b).

Justiça Social, Letramentos e Ecologia de Saberes na Formação de professores de línguas

Justiça social, Letramentos e Ecologia de Saberes na Formação de Professores de Línguas

Marcia Lisbôa Costa de Oliveira

O projeto de pesquisa “Justiça Social, Letramentos e Ecologia de Saberes na Formação de professores de línguas” está ligado ao grupo de pesquisa "Formação de Professores, linguagens e Justiça Social (PROFJUS - FFP/UERJ). O problema central da pesquisa é: como construir, em um contexto acadêmico, uma perspectiva pós-abissal que articule e combine diferentes tipos de conhecimentos, culturas e práticas na formação de professores de línguas, contribuindo para a emergência de uma sociedade mais justa e mais digna?  Tomamos como ponto de partida as concepções de Boaventura Souza Santos para problematizar a hierarquização de corpos e de conhecimentos, pensando a relação entre justiça cognitiva e justiça social, a partir da reflexão acerca das linhas abissais que “dividem a realidade social em dois universos distintos: o “deste lado da linha” e o “do outro lado da linha” (SANTOS, 2007, p. 72). Essas linhas representam os abismos intransponíveis que se colocam entre o que/quem é considerado é relevante e o que/ quem é inexistente. Territórios, culturas e indivíduos posicionados “do outro lado da linha” são, assim, invisibilizados, num processo epistemicida. Tecemos essa perspectiva à Formação de Professores para a Justiça Social -FPJS, que, além do combate às desigualdades educacionais, compromete-se com a educação de docentes que lutem contra as “injustiças que subsistem nas sociedades para além do contexto das escolas - no acesso à habitação, à alimentação, à saúde, aos transportes, a um trabalho digno que proporcione um salário de subsistência, etc. (ZEICHNER In: MOREIRA e ZEICHNER, 2014, p.135). Para a reflexão acerca das relações entre concepções de escrita, construção de sentidos e escolarização, recorremos aos estudos contemporâneos sobre os letramentos (GEE, 2008; STREET, 2014, BARTON E HAMILTON,1998, KALANTZIS e COPE, 2012), que estimulam “um repensar sobre o desenho curricular/ as políticas curriculares, a relação escola-sociedade, a relação professor-aluno, a linguagem em suas modalidades e a linguagem em suas comunidades de prática” (MONTE MÓR In: OLIVEIRA, 2019, p. 14). Dessa forma, o projeto desenvolve uma investigação de caráter teórico-metodológico situada em contextos de desigualdade social e busca situar suas ações e reflexões em contextos nos quais circulam sujeitos posicionados “do outro lado da linha” e pauta-se pelo respeito à pluralidade de saberes e de formas de existir e compreender o mundo, tendo em vista a defesa da educação pública democrática, dialógica, solidária e equitativa. Trata-se, portanto, de um projeto que visa “preparar professores que contribuam para um mundo mais igual e justo” (ZEICHNER in: MOREIRA & ZEICHNER, 2014, p. 138), a partir da discussão conceitual e do desenvolvimento de práticas transformadoras. Dessa forma, a investigação se constrói como uma rede de pesquisas-ação socialmente críticas na qual a agenda da justiça social vincula-se à ecologia de saberes para proporcionar, na formação de professores de línguas, o desenvolvimento de “ferramentas analíticas necessárias para entender a opressão e sua própria socialização em sistemas opressivos, desenvolvendo agência e capacidade para interromper e mudar padrões ou comportamentos opressivos em si mesmas e nas instituições e comunidades em que participam” (BELL, 2007, p. 2).

Para um giro de(s)colonial na Formação de Professores de Línguas e Literaturas: teoria, crítica e experiência

O projeto, desenvolvido no âmbito do Programa PROCIÊCIA - DEPESQ/UERJ, propõe o estudo de teorias discussões desenvolvidas no campo dos estudos de(s)coloniais, que discutem os impactos da colonização nas estruturas sociais, nos modos de pensar e de fazer ciência. Essa abordagem entende que o processo colonial impacta o modo como povos e culturas produzem sentidos e como agem diante de diferenças nas formas de ser e saber. Assim, produzem a superioridade de determinadas formas de ser e de determinados saberes e, pelo exercício do poder geram exclusões e opressões. Os intelectuais ligados aos estudos decoloniais propõem uma mudança no modo como o pensamento colonial pensa o conhecimento, que chamam de ?giro epistêmico?. Nessa mudança, apontam a necessidade de deixarmos de pensar a partir do norte ? entendido não somente em termos geográficos, mas sobretudo em termos de uma associação entre poder e conhecimento, para pensar a partir de nossa posição ao sul. Isso implica desconstruir muitos dos conceitos que internalizamos. Com base nessas ideias, pretendemos desenvolver experiências de formação com licenciandos em Letras da FFP/UERJ, usando a Pesquisa-Ação Socialmente Crítica (TRIPP, 1990) como metodologia e partindo do ponto de vista de(s)colonial..

Victoria Wilson

Emoções, face e (im)polidez em (dis)curso: tensões e conflitos em interações virtuais (Projeto 1)

A pesquisa pretende discutir aspectos do fenômeno da cordialidade no Brasil, revitalizando os estudos de Buarque de Holanda (1936) e outros mais recentesm em associação aos processos de elaboração de face definidos por Goffman (1967). O intuito é verificar a produtividade do fenômeno em termos da constituição de um self cordial, no Brasil, como elemento importante, segundo Rocha (1998), na definição de nossos padrões de convívio. Em uma sociedade cordial, como é considerada a brasileira, o princípio que a regula fundamenta-se na neutralização do confronto (ou nos meios de evitá-lo), por isso reiteramos comportamentos do tipo “deixa-disso” ou do jeitinho brasileiro. No entanto, estudos têm mostrado o quanto a cordialidade compreende as duas facetas: ao lado da bondade e da simpatia, convivem o ódio e a violência. É esta ambivalência que estrutura as nossas relações sociais como bem demonstraram da Matta (1979) e Madeira e Veloso (1999) e Wilson (2014) e são fruto de nosso comportamento personalista.  A questão que se coloca é a seguinte: existirá ainda uma lógica afetiva do homem cordial? E, caso exista, como se configura? Ou seja, como as compreensões cotidianas de entender o mundo são incorporadas ao discurso, alterando ou potencializando antigos padrões de comportamento e convívio em nossos modos de agir? Uma das hipóteses deste estudo reside no fato de que nas interações em que diferentes pontos de vista sobre a situação política brasileira se manifestam, a polaridade se fez presente, revelando traços mais personalistas e menos racionais, portanto, mais assentados na esfera da cordialidade – lugar das emoções – do que na esfera da polidez – espaço de atitudes racionais e mais impessoais de convívio e preservação das faces. Diante dessa polaridade, potencializa-se a (im)polidez como outro aspecto ou traço relacionado ao self cordial. A análise, de cunho interpretativista, focará mensagens no whatsapp e comentários do facebook a princípio.

Sentidos do letramento acadêmico no contexto de uma Faculdade de formação de professores (Projeto 2)

A pesquisa no campo do letramento acadêmico tem-me direcionado para um maior aprofundamento da compreensão do dialogismo bakhtiniano e dos modos de ser letrado na perspectiva dos Novos Estudos do Letramento. As dificuldades dos alunos em escrever textos acadêmicos não se traduzem  apenas pela falta de familiaridade com os gêneros que circulam na academia, mas expandem-se para as sutilezas do estilo, para as diferentes  linguagens sociais e esferas do conhecimento especializado que demandam aprendizagem específica e inserção no universo acadêmico. Assim, conceitos como o de comunidades de prática (WENGER, 1991) tornam-se relevantes para o entendimento das especificidades do contexto em termos das interações que se estabelecem entre os participantes destas comunidades em questão. Como circulam os saberes, como são negociados nas relações professor-aluno, professor/pesquisador-aluno? Como os alunos se sentem quando enfrentam o desafio de escrever projetos e monografias na graduação como trabalhos de conclusão de curso? Qual o impacto e a importância desses trabalhos para eles, por exemplo?  Como lidar com as diferentes experiências subjetivas com a linguagem e com o(s) conhecimento(s) que se manifestam nesses textos? Inserido no âmbito da “Linguística Aplicada Indisciplinar”, na dimensão dialógica bakhtiniana, esse trabalho visa recuperar algumas dimensões (política, ética e estética) para problematizar a “funcionalidade” e as experiências da escrita acadêmica, compreendendo-a como prática social e linguagem especializada, para tratá-la como atividade humana, social e subjetiva, que envolve capturas e rupturas, mas que possa ser legitimada em suas diferenças (ZAVALA, 2010) e “ser percebida como pontos de vista sobre o mundo” (BAKHTIN, 1993, p. 99). Por isso, repensar o paradigma dominante de fazer ciência em direção ao paradigma emergente proposto por Boaventura de Sousa Santos tem contribuído para a revisão dos meus próprios paradigmas como professora, professora pesquisadora no contexto de uma faculdade de formação de professores, espaço em que os saberes são construídos tendo como foco a formação docente. Tal escopo é refletido nos projetos e monografias e monografias de graduação (TCC), material de análise da pesquisa. A orientação teórcio-metodológica baseia-se no conceito de heterociência de Bakhtin (2003), na etnografia discursiva proposta por  Corrêa (2001) em diálogo com a Linguística Aplicada híbrida e mestiça tal como proposta por Moita Lopes (2006)